Gamer’s Mind #1: Alice Madness Returns, no limite da loucura

Conheçam o lado mais psicológico dos games na nossa nova série Gamer’s Mind. E como post inaugural, falaremos da obra prima que é o Alice Madness Returns. Venha conhecer as facetas mais sombrias desse jogo, e divirta-se na insanidade.

CUIDADO: CONTÉM SPOILERS!!!

Muitos games vão além do simples apontar e atirar. Vários deles possuem histórias que vão mexer com sua cabeça, te deixar horas pensando. E é isso que os produtores querem!

Com certeza você conhece o clássico Alice no País das Maravilhas, certo? Esse jogo veio para desconstruir tudo de bonitinho que você achava que era a incrível Wonderland.
Tudo começou a mais ou menos 11 anos atrás, quando o primeiro jogo foi lançado, acabando com os sonhos doces de contos de fadas dos jogadores da época e imergindo eles em um mundo sangrento e terrorífico da mente de uma menina perturbada com American McGee’s Alice, mas não entrarei em detalhes sobre o primeiro jogo. Tudo que você precisa saber é que nesse game antigo a pobre menina foi levada a um asilo depois de seus pais e sua irmã terem morrido em um incêndio, a pobrezinha era louca e alucinava com uma Wonderland mal assombrada e insana.
Alice Madness Returns é a sequência desse jogo, onde, depois de 11 anos, Alice reside em um orfanato em Londres, e é aqui que começa minha análise.

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Alice em seu quarto no orfanato, é possível ver fotos de sua família e alguns de seus desenhos.

O jogo começa com a Alice sendo analisada por seu psiquiatra, o Dr. Bumby, em um processo de hipnose. Ela começa vendo Wonderland linda e fofa, depois começa o caos e a destruição, com sangue e cenas perturbadoras. O que é importante ressaltar aqui é a hipnose, na Era Vitoriana, era comum entre psicólogos e psiquiatras pois eles acreditavam que era a forma mais fácil de acessar plenamente o Inconsciente. Vale ressaltar também que Sigmund Freud (o conhecido psicólogo e fundador da Psicanálise) usou da hipnose primeiramente, mas a abandonou logo depois. A hipnose é possível, porém não se pode acessar verdadeiramente nada dela, visto que ela funciona a partir de métodos sugestivos e persuasivos.
Wonderland era para ser um mundo imaginário de criança, mas foi retomado durante toda a vida de Alice por causa de sua loucura, e ao contrário do que muitos pensam, essa loucura não afasta o ser humano da realidade, apenas possibilita um outra forma de compreensão desse mundo, é uma lógica diferente.

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Alice no local onde vive o Chapeleiro Maluco.

Uma coisa curiosa que se pode perceber, nas duas imagens acima, é que Alice é um pouco diferente em Wonderland e no mundo real, isso se dá porque é a forma particular dela de ver a si própria, e talvez até se parecer com a época em que o incêndio de seus pais ocorreu, onde ela estava com cabelo mais longo. Dá para perceber também que ela associa muita coisa do mundo real a Wonderland, o que faz a hipótese de lá ser realmente um mundo imaginário mais consistente, já que ela mistura elementos com os quais ela convive com o mundo fantasioso.
Em busca de respostas sobre o evento passado ocorrido, Alice procura não só em seu mundo real, mais como em Wonderland, e a medida que ela passa as fases, as dificuldades de ambos os mundos, ela descobre uma coisa nova, e isso é amplamente representado no País das Maravilhas. Outra coisa que prova isso é o Chesire Cat, que diz a ela que a corrupção de seu mundo de fantasias vem de fora, e ela precisa encontrar a solução.
Aos poucos, ela vai encontrando pistas importantes para as principais causas do incêndio, ela visita todos os locais de Wonderland (e ao mesmo tempo os locais que ela conhece em Londres) e dialoga com seus conhecidos. E dentro de sua fantasia, existe um modo especial de jogo que é ativado quando Alice está com pouca vida, que se chama Histeria.

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Modo Histeria.

 

A Histeria era uma doença comum na época, onde acreditava-se que ela afetava apenas mulheres e estava relacionada ao útero. O histérico perde os sentidos e muitas vezes fica cego por um tempo e perde seu controle ficando em pânico. Nesse caso pode ser observado que a Alice “usava” a Histeria para permanecer em seu mundo cercado pela corrupção, que representa seus conflitos, suas dúvidas e suas lembranças apagadas.
Aliás, as lembranças também são representadas como fragmentos em que você coleta durante o jogo, isso mostra como as memórias da menina foram sendo retomadas a medida que ela conhecia mais seu cérebro, seus conflitos, a corrupção que a matava mas ela não sabia exatamente o porquê.

 

A Rainha de Copas.

A Rainha de Copas.

 

O ponto crucial do game é quando ela vai em direção ao castelo da Rainha de Copas (que ela tinha derrotado em American McGee’s Alice, mas que pelo visto, continuava viva).
O lugar do castelo é extremamente orgânico, bem vermelho, e com elementos que parecem tecidos do corpo humano, o que dá a entender que é como se ela estivesse acessando o próprio coração, e não entender aqui como se ela estivesse mesmo acessando, claro, mas é a forma de representar que seria na parte de seus afetos que ela encontraria respostas.
Depois de caminhar bastante, ela encontra a Rainha de Copas, que incrivelmente está com a aparência de Lizzie, sua irmã.
As duas conversam, e basicamente Lizzie diz que existe uma criatura chamada Doll Maker, que é o responsável por sua corrupção e por suas memórias estarem apagadas. Alice encontrou a principal informação onde a partir disso ela iria encontrar as respostas que tanto precisava, e quem melhor que sua irmã para isso? Lizzie se posiciona no coração de Alice, ou seja, em um lugar de afeto, e apenas ela tinha a resposta para tudo.
Mas, antes de eu comentar sobre os acontecimentos que levaram ao incêndio e a loucura de Alice, reservarei um espaço especial para o Trem Infernal, que é a chave de todo o jogo.

O trem infernal.

Esse trem aparece durante todo o jogo, no final de cada capítulo, e é ele o responsável por deixar Wonderland macabra e corrupta. E é onde o Doll Maker está também. Então como vocês já vem observando, é algo externo que deixa a pobre menina louca.
E ai vem os eventos da realidade. O psiquiatra que cuida de Alice, o Dr. Bumby, usa a hipnose maldosamente, para manipular a mente de crianças para que molestadores possam usufruir delas sem que elas denunciem ou algo do tipo. E sim, ele fazia isso com a irmã de Alice, a Lizzie, porém ela percebeu e quis denunciá-lo, foi quando ele foi lá e pessoalmente botou fogo na casa e matou todo mundo, menos Alice (que viu ele passando para o quarto da irmã para matá-la), e ele vem enlouquecendo a pobre menina durante todos esses anos, para que ela fique louca e suas memórias fiquem apagadas. E ai vem a luta com o Boss dentro de Wonderland, que aparentemente dá coragem para Alice enfrentar o Doutor na vida real.
Nesse jogo mostra a contribuição que nossos pensamentos e fantasias podem fazer ao nosso mundo real, e que não podemos encarar as pessoas como loucas somente por que elas nasceram assim, ninguém está isento do mundo externo, e também não podemos julgar uma pessoa que é louca achando que ela deve ficar isolada da sociedade, e ai eu entro numa questão muito importante que envolve a minha futura profissão e o campo de atuação da saúde: por que deixar os loucos isolados da sociedade em um lugar tão frio e desumano como o manicômio? Ele só contribui para que as pessoas sofram ainda mais. E mais do que isso, pra que classificar as pessoas? Só por que a lógica dela é diferente da nossa? Alice começou a conviver em sociedade e sua possível “loucura” a ajudou a resolver uma questão de sua vida, nem tudo que achamos que é malefício, é realmente uma coisa muito ruim e que deve ser banida de tudo e todos.

Dollmaker

Dollmaker

Mas ai vem as cenas finais, e isso mostra porque o Trem Infernal é a chave de tudo: Alice enfrenta o Doutor, que diz que é a palavra dele (um estudioso renomado) contra a dela (uma menina louca), e ela, furiosa, o joga nos trilhos, e o trem passa em cima dele. E tudo parece estar resolvido.
Até Alice sair da estação e se ver em “Londerland”, uma espécie de mistura entre Londres e Wonderland. O que me deixou preocupada, pois há uma cisão entre seu mundo de fantasias e o mundo real, e quando isso acontece, começa a acontecer de fato um problema, um malefício, que é a falta de noção, a alucinação, os surtos e comportamentos psicóticos. Não seria saudável para Alice não separar os dois mundos. Por isso Londerland representa a imersão de Alice em seu próprio mundo, uma fuga grave da realidade, um estado de crise.
Quando ela empurra o Dr. Bumby para os trilhos, ela está com o vestido que usa em Wonderland, e isso dá duas possibilidades de interpretação: ela pode ter alucinado a morte do doutor, ou pode ter entrado em completo estado de loucura e empurrado ele de verdade, e permanecido nesse estado desde então.
Wonderland representa também a coragem de Alice ao enfrentar situações, ela lida com monstros, luta, é sanguinária e tudo mais, isso é bem mostrado com a diferença das duas Alices, que eu citei lá em cima, e isso significa que ela deixou a sua Alice corajosa sair, ela conseguiu expressar corporalmente todo o seu mundo de fantasias. E ai definir se foi um final feliz ou não fica a critério de como ela lidará com Londerland no futuro e como separará a fantasia da realidade. Aliás, o que é o real, não é mesmo?

 

Sobre o Autor

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Daniel Costa

24 anos, graduado em Tecnologia de banco de dados, empresário, gamer desde sempre, tento ser designer mas sempre acabo fazendo programas feios (T_T), programador web, quase web designer, DBA, porteiro, jardineiro e carteiro nesse blog/page que vossa senhoria está lendo! Um mingo dupal que quase ninguém sancha mas que sempre sabe onde está sua toalha!